Capítulo 3 – Indianos Chegam à África do Sul

Nós vimos no capítulo anterior como os ingleses chegaram. Eles se estabeleceram em Natal, onde eles obtiveram algumas concessões dos Zulus. Eles viram que excelente cana de açúcar, chá e café poderiam ser plantados e colhidos em Natal. Milhares de trabalhadores seriam necessários para lavrar tais plantios em larga escala, o que estava além da capacidade de um punhado de colonizadores. Eles ofereceram incentivos e depois ameaças aos Negros para fazê-los trabalhar mas em vão, pois escravidão já havia sido abolida naquela época. O Negro não estava acostumado ao trabalho árduo. Ele podia facilmente manter-se trabalhando somente seis meses ao ano. Por que então iria ele se vincular a um chefe ao longo prazo? Os colonizadores ingleses não conseguiriam lidar com suas plantações na ausência de uma força trabalhista estável. Então eles iniciaram negociações com o Governo da Índia e pediram sua ajuda para o envio de trabalhadores. O Governo da Índia disse sim ao pedido dos colonizadores e o primeiro lote de trabalhadores contratados da Índia chegaram em Natal no dia 16 de Novembro de 1860, certamente uma data crítica para essa história; se não fosse por isso, não haveriam indianos e portanto não haveria Satyagraha na África do Sul, e este livro não seria escrito.

Na minha opinião, o governo da Índia não foi bem aconselhado ao ter feito as decisões que ele as fizeram. Os governantes da Índia cientes ou não eram parciais com relação aos seus compatriotas em Natal. É verdade que vários termos foram colocados nos contratos que somente fingiam proteger os interesses dos trabalhadores. Eles foram bem organizados quanto à questão do embarque dos trabalhadores. Entretanto, tal consideração não foi dada com relação a como estes trabalhadores iliteratos que viajaram a uma terra distante procurariam justiça se os mesmos tivessem qualquer problema. Nenhuma consideração foi dada às necessidades religiosas ou à preservação da moralidade dos mesmos. Os funcionários públicos britânicos na Índia não ponderaram que embora a escravidão tivesse sido abolida por lei, os chefes não estariam libertos do desejo de escravizar os seus empregados. Eles não perceberam, como deveriam ter percebido, que os trabalhadores que foram para Natal se tornariam escravos temporários. O falecido Sir W. W. Hunter, que havia estudado profundamente estas condições trabalhistas, disse uma frase notável sobre os trabalhadores. Escrevendo sobre os trabalhadores indianos em Natal, ele disse que o estado destes era de semi escravidão. Em outra ocasião, através de uma carta, ele descreveu a condição dos mesmos como beirando à escravidão. E apresentando provas ante uma comissão em Natal, o mais proeminente europeu naquela colônia, o falecido senhor Harry Escombe, admitiu o fato. Testemunhos com o mesmo efeito podem ser coletados facilmente dos depoimentos de europeus proeminentes em Natal. A maioria destes foram incorporados nos memoriais sobre o assunto submetido ao governo da Índia. Mas o destino tomaria seu curso. E o navio que levou estes trabalhadores a Natal também levou a semente do grande movimento Satyagraha.

Eu não possuo o espaço neste volume para narrar o quão iludidos foram os trabalhadores pelos agentes recrutadores conectados a Natal; como sob a influência de tal ilusão eles partiram de sua terra natal; como seus olhos foram abertos quando estes chegaram a Natal; como eles continuaram a ficar por lá; como outros os seguiram; como eles romperam todas as limitações que a religião ou a moral impusessem, ou para ser mais preciso, como essas limitações cederam, e como a própria distinção entre uma mulher casada e uma concubina deixaram de existir entre estas pobres pessoas.

Quando a notícia que os trabalhadores contratados tinham ido a Natal chegou à República de Maurício, comerciantes indianos que tinham conexões com estes trabalhadores foram motivados a segui-los a Natal. Milhares de indianos, tanto trabalhadores quanto comerciantes, se estabeleceram na República de Maurício que é caminho para Natal quando se parte da Índia. Um comerciante indiano na República da Maurício, o falecido Sheth Abubakar Amad, pensou em abrir uma loja em Natal. Os ingleses em Natal até então não tinham ideia do que os comerciantes indianos eram capazes, e tampouco ligavam para isso. Os ingleses foram capazes de plantar lucrativos cultivos de cana de açúcar, chá e café, com o auxílio do trabalho contratado. Eles faziam o açúcar, e rapidamente conseguiram suprir a África do Sul com uma quantidade razoável de açúcar, chá e café. Eles ganharam tanto dinheiro que eles construíram enormes mansões para os mesmos e transformaram lugares selvagens em verdadeiros jardins. Em tais circunstâncias eles naturalmente não se incomodavam com o fato de um comerciante honesto e corajoso como Abubakar Sheth se estabelecer ao seu meio. Eles se incomodavam tão pouco que até mesmo um inglês virou sócio de Abubakar Sheth. Este continuou com seu comércio e comprou terrenos, e a história de sua prosperidade chegou a Porbandar, sua cidade natal, e também ao seu país. Outros Memons consequentemente foram para Natal. Borahs de Surate seguiram os Memons. Estes comerciantes precisavam de contadores, e contabilistas hindus de Gurarat e Saurashtra acompanharam eles.

Dois tipos de indianos foram então para Natal: os comerciantes livres e seus empregados que também eram homens livres, e os trabalhadores contratados. Ao passar do tempo os trabalhadores contratados tiveram filhos. Embora as crianças não fossem obrigadas a trabalhar, elas foram afetadas por várias e severas provisões da lei colonial. Como poderiam os filhos de escravos escapar o estigma da escravidão? Os trabalhadores foram para Natal sob seus contratos por um período de cinco anos. Eles não tinham qualquer obrigação de trabalhar após o término daquele período, e foram autorizados a trabalhar como trabalhadores livres ou para virarem comerciantes em Natal, e se estabelecerem lá se os mesmos o quisessem. Alguns destes trabalhadores decidiram ficar em Natal enquanto outros voltaram para a Índia. Aqueles que ficaram em Natal ficaram conhecidos como os “indianos livres.” É necessário entender a posição peculiar dessa classe. Eles não gozavam de todos os direitos de que gozavam os indianos verdadeiramente livres (aqueles que vieram sem contrato) dos quais eu mencionei primeiro. Por exemplo, os “indianos livres” necessitavam obter um passe se os mesmos quisessem ir de um lugar a outro, e se eles se casassem e quisessem que seu casamento fosse reconhecido por lei, eles deveriam registará-lo com um funcionário público conhecido como Protetor dos Imigrantes Indianos. Eles também foram sujeitos a outras restrições mais severas.

Os comerciantes indianos notaram que eles poderiam vender não só para os trabalhadores indianos e para os “indianos livres,” mas também para os negros. Os comerciantes indianos eram uma fonte de grande conveniência para os negros, que temiam muito os comerciantes europeus. Estes comerciantes queriam vender para os negros, mas ia ser muito difícil para os negros serem bem tratados pelos europeus. Os negros poderiam se imaginar sortudos se algum europeu até mesmo considerasse sua oferta. Alguns deles tiveram amargas experiências. Um homem poderia comprar um item que valia 4 xelins, pagar com um soberano, e receber quatro xelins de troco em vez de dezesseis, ou às vezes não receber troco algum. Se o pobre negro pedisse pelo troco correto ou mostrasse que estava faltando trocado, a resposta seria em forma de uma grande injúria. O mesmo agradeceria imensamente se a injúria parasse por aí; caso contrário o abuso seria acompanhado por um chute ou um soco. Eu não quero dizer que todos os comerciantes ingleses se portavam desta forma. Entretanto pode-se dizer seguramente que o número de tais casos era bem alto. Por outro lado, comerciantes indianos eram amigáveis com os negros e até mesmo se divertiam com os mesmos. O negro comum queria entrar na loja e manusear e examinar as coisas que ele queria comprar. Os comerciantes indianos permitiam tudo isso. É verdade que neste aspecto eles não agiam de tal modo por motivos altruísticos, pode-se dizer que eles agiam por interesse próprio. O indiano possivelmente não perderia sua oportunidade, se lhe fosse apresentada, de trapacear o seu consumidor negro, mas sua cortesia o fazia popular com os negros. Além disso, os negros nunca temiam os comerciantes indianos. Pelo contrário, ocorreram casos onde um indiano tentou trapacear um negro, mas ao ser descoberto, este foi agredido pelos negros. E com mais frequência se era dito que os consumidores negros abusavam dos comerciantes indianos. Portanto, com relação aos indianos e aos negros, os indianos é que temiam os negros. Consequentemente, o comércio com os negros se tornou muito lucrativo para os comerciantes indianos. E os negros habitavam toda a África do Sul.

Haviam repúblicas boêres no Transvaal e no Estado Livre de Orange durante os anos oitenta do século passado (~1880’s). Eu não preciso ressaltar que nestas repúblicas os negros não tinham poder algum, e todos os negócios e decisões cabiam aos homens brancos. Os comerciantes indianos também descobriram que eles poderiam comercializar com os boêres, que, sendo um povo simples, franco e sem pretensões, não tinham preconceito quanto a comprar com comerciantes indianos. Vários destes comerciantes então foram para o Transvaal e o Estado Livre de Orange e abriram lojas lá. Como não haviam trens naquela época, eles tiveram muito lucro. As expectativas dos comerciantes indianos foram completas e estes continuaram a vender bastante aos boêres e aos negros. Da mesma maneira, vários comerciantes indianos foram para a Colônia do Cabo e começaram a ganhar um bom dinheiro. Os indianos foram então se distribuindo em números pequenos por todas as quatro colônias.

Neste momento o número de indianos livres vivendo na África do Sul está entre quarenta e cinquenta mil, enquanto que o número de “indianos livres,” isto é, os trabalhadores contratados que foram libertos de seus contratos e seus descendentes, está por volta de cem mil.

Capítulo 2 – História

As divisões geográficas brevemente descritas no primeiro capítulo são bem recentes. É muito difícil de dizer quem foram os habitantes nativos da África do Sul em tempos remotos. Quando os Europeus chegaram à África do Sul eles encontraram os negros lá. Esses negros supostamente eram descendentes de escravos das Américas que conseguiram escapar da cruel escravidão da época e migraram para a África. Esses negros estão divididos em várias tribos, como por exemplo os Zulus, os Swazis, os Basutos, os Bechuanas, etc. Eles possuem várias línguas distintas. Esses negros podem ser considerados como os habitantes nativos da África do Sul. Mas a África do Sul é tão grande que nela facilmente caberiam vinte ou trinta vezes mais do que sua população atual de negros. A distância entre a Colónia do Cabo e Durban é cerca de dezoito mil milhas, se formos de trem. A área total dessas quatro colônias é 473.000 milhas quadradas. Em 1914 a população de negros nesta vasta região era cerca de cinco milhões, enquanto que a de europeus era de um milhão duzentos e cinquenta mil.

Entre as tribos negras, a que possuía as maiores e mais formosas pessoas era a tribo dos Zulus.    Eu usei deliberadamente o epíteto “formosas” em conexão com as pessoas da raça negra. Nosso ideal de beleza se relaciona com peles mais claras e com um nariz fino. Mas se nós nos esquecermos dessa superstição por um momento, nós podemos ver que o Criador não economizou ao modelar o Zulu à perfeição. Homens e mulheres são ambos altos e de peitos largos em proporção à sua altura. Seus músculos são fortes e bem definidos. Suas panturrilhas e seus braços são musculosos e sempre bem arredondados. Você raramente encontrará um homem ou uma mulher corcunda ou andando curvado. Os lábios são certamente grandes e grossos, mas em perfeita medida com o resto do corpo, eu pelo menos não diria que seus lábios estão fora de proporção. Seus olhos são redondos e brilhantes. O nariz é chato e grande, em proporção com a face, e os cabelos encaracolados na cabeça “sets off to advantage” a pele dos Zulus que é negra e brilhosa como ébano. Se nós perguntarmos a um Zulu que raça, dentre as várias que habitam a África do Sul, que ele acha ser mais bonita, ele responderia sem hesitar a sua própria raça, e eu não consideraria essa resposta nem um pouco arrogante. O corpo do Zulu é forte e finamente modelado pela natureza, sem qualquer intervenção humana, ao contrário de Sandow e outros na Europa que necessitam trabalhar arduamente para desenvolver seus músculos. É uma lei da natureza que a pele das raças que vivem próximas à linha do Equador sejam negras. E se nós acreditamos que há de haver beleza em tudo que é criado pela natureza, nós na Índia não somente nos distanciaríamos de todas as concepções bitoladas de beleza, como também nos livraríamos do errôneo senso de vergonha e desgosto que nós sentimos de nossa própria cor se ela difere da clara.

Os Negros vivem em cabanas redondas de pau a pique. As cabanas têm somente uma parede arredondada e são cobertas com feno. Uma coluna central dentro da cabana serve de suporte para o teto. A única entrada para a cabana é uma entrada pequena pela qual só se pode passar agachado, e esta é a única abertura para entrada de ar. As entradas raramente têm portas. Como nós [pessoas da Índia], os Negros rebocam as paredes e o chão com terra e esterco de animais. Dizem que Negros não são capazes de construir nada que tenha formato quadrado. Eles têm treinado seus olhos, através das gerações, para verem e construírem apenas objetos arredondados.  A natureza nunca constrói coisas em linhas retas, e estas crianças inocentes da natureza obtém todo seu conhecimento através de sua experiência da mesma.

A mobília nas cabanas está de acordo com a simplicidade da moradia. Não há espaço para mesas, cadeiras, caixas e coisas do tipo, e até mesmo nos dias de hoje esses objetos são raramente vistos em uma cabana.

Antes da chegada da civilização européia, os Negros costumavam a se vestir com peles de animais,  que também os serviam como carpetes, roupas de cama e colchas. Hoje em dia eles usam lençóis. Antes do governo britânico se estabelecer na África do Sul, homens assim como mulheres andavam fora de suas casas quase nus. Até hoje em dia muitos ainda o fazem no interior. Eles somente cobrem as partes íntimas com um pedaço de pele animal. Algumas pessoas nem cobrem as partes íntimas. Mas não deixe que ninguém conclua dessa situação que esse povo não consegue controlar seus impulsos. Se um costume é adotado por uma sociedade, é bem provável que este seja inofensivo para esta sociedade até mesmo se este pareça altamente inadequado para os membros de outra sociedade. Estes Negros têm mais o que fazer ao invés de ficarem encarando uns aos outros. Quando Shukadeva passou cerca de algumas mulheres nuas que tomavam banho, como o autor do Bhagavata nos diz, sua própria mente estava serena; da mesma forma estavam calmas as mulheres que se banhavam, nenhuma delas sentiu vergonha de seu estado de nudez. Eu não creio que haja nada sobrenatural nessa história. Se na Índia hoje, não hexa nenhuma pessoa que seja igualmente pura em uma situação parecida, isto não nos impõe um limite para que nós alcancemos tal pureza, mas somente nos diz o quão impuros que nós nos tornamos. É só presunção que nos faz ver os Negros como selvagens. Eles não são esses bárbaros que nós imaginamos que eles sejam.

As leis impõem que as mulheres negras se cubram dos ombros até os joelhos quando elas vão às cidades. Elas são obrigadas a cobrir-se com uma peça de tecido em volte de seus corpos. Consequentemente, peças de tecido do tamanho médio das mulheres negras estão em alta demanda na África do Sul, e milhares dessas peças são importadas da Europa todos os anos. Os homens negros também são obrigados a se cobrirem, mas somente da cintura até os joelhos. Portanto, muitos deles começaram a se vestirem com roupas de segunda moda Europa. Outros se vestem com um tipo de ceroulas com um cinto. Todas essas roupas são importadas da Europa.

A comida típica dos Negros é o milho, e carne quando disponível. Felizmente, eles não sabem da existência de temperos ou condimentos. Se eles sentem o gosto de tempero em sua comida ou mesmo se sua comida esteja colorida com açafrão-da-terra, eles a rejeitam, e os que dentre eles são  considerados como muito bárbaros nem se dispõem a tocar a comida. É muito comum para um Zulu comer de uma só vez meio quilo de milho cozido com somente uma pitada de sal. Ele se contenta em viver de mingau feito com milho doce moído cozido em água. Sempre que o Negro consegue carne, ele a come, seja crua, cozida ou assada, temperada com pouco sal. Ele não se incomoda em comer qualquer tipo de carne.

Os nomes dados às línguas faladas pelos Negros são os mesmos nomes de suas respectivas tribos. A arte da escrita foi recentemente introduzida pelos europeus. Não havia nenhum alfabeto Negro. A bíblia e outros livros foram recentemente traduzidos para as línguas dos Negros em caracteres romanos.  A língua Zulu é muito bonita. A maior parte das palavras termina com um largo som de ‘a’; portanto, essa língua tem um som suave e prazeiroso de se ouvir.  Eu ouvi falar que há ambos sentido e poesia em cada palavra. A julgar pelas poucas palavras que eu ocasionalmente aprendi, eu creio que esta é uma afirmação justa. Em quase todas as tribos Negras há nomes bonitos e poéticos que são equivalentes aos nomes europeus que eu havia mencionado. Peço desculpas ao leitor por ter esquecido esses nomes e portanto não os posso mencionar nesse livro.

De acordo com os missionários cristãos, antes de sua chegada os Negros não pertenciam à religião alguma, e continuam sem pertencer a qualquer religião. Mas se considerarmos um conceito mais amplo de religião, pode-se dizer que os Negros crêem e adoram a um ser supremo além da compreensão humana. Eles também temem ao poder desse ser supremo. Os Negros têm uma vaga consciência do fato de a morte não significar a completa aniquilação de uma pessoa. E se nós reconhecermos a moralidade como a base da religião, podemos dizer que a moral dos Negros pode até ser considerada religiosa. Eles distinguem perfeitamente entre os conceitos de verdade e mentira. É duvidoso se os europeus ou até mesmo nós [povo da Índia] praticamos honestidade tanto quantos Negros, em seu estado primitivo, a praticam. Eles não têm templos ou nenhum outro prédio do tipo. E existem tantas superstições em sua cultura quanto em qualquer cultura de outras raças.

O leitor se surpreenderá ao saber, que esta raça, que não perde pra nenhuma outra neste mundo no quesito de força física, é tão medrosa que um Negro tem medo até ao ver uma criança européia. Se alguém aponta um revólver em sua direção, ele correrá de medo ou então ficará tão estupefato que não conseguirá nem se mexer. E certamente há um motivo para isto. Os Negros crêem firmemente que, somente por algum tipo de mágica é que se é possível que um número pequeno de homens europeus pudessem conquistar uma raça tão numerosa e feroz como a deles. Os Negros já sabiam usar lanças, assim como arcos e flechas. Destes eles foram privados. Eles nunca haviam visto ou usado uma arma de fogo. Nenhum fósforo é necessário, nada mais deve ser feito além de mexer um dedo para puxar o gatilho e de repente um ruído se é ouvido de um tubo pequeno, e deste se é vista uma luz, e uma bala fere e causa a morte de uma pessoa instantaneamente. Isto é algo que o Negro não consegue entender. Portanto ele teme aqueles que possuem tal armamento. Ele, e seus antepassados viram que tais balas tiraram sem misericórdia as vidas de muitos Negros inocentes. Muitos ainda nem sabem como é que isso acontece.

A “civilização” gradualmente se infiltra na cultura do Negros. Missionários devotos pregam para eles a mensagem de Cristo como eles a tem entendido, abrem escolas em suas comunidades e os ensinam a ler e a escrever. Mas muitos Negros que eram até então livres de muitos vícios, por serem analfabetos e portanto desconexos da civilização, agora se corromperam com os vícios da sociedade civilizada. Dificilmente algum Negro que tenha tido contato com a civilização escapou do mal do alcoolismo. E quando seu físico poderoso está sob influência do álcool, ele se torna perfeitamente insano e comete todos os tipos de crimes. Que a civilização induz à multiplicação dos desejos no homem é tão certo quanto dois mais dois são quatro. Para aumentar as necessidades dos Negros ou para ensiná-los o valor do trabalho, um imposto individual e um imposto por cabana (residência dos Negros) foram forçados nos Negros. Se estes impostos não fossem cobrados, essa raça de agricultores vivendo em suas fazendas não entrariam em minas de centenas de metros de profundidade para extrair ouro ou diamantes, e se a sua força de trabalho não fosse usada nas minas, ouro e diamantes permaneceriam nas profundezas do solo. De qualquer forma, os europeus iriam ter dificuldades em encontrar servos se tal imposto não fosse cobrado. Como consequência, milhares de Negros sofreram, junto a outras doenças, de um tipo de tuberculose chamada “tuberculose de mineradores.” Essa doença era fatal. Dificilmente uma pessoa contaminada dela se recuperava. O leitor pode facilmente imaginar quanto autocontrole milhares de homens vivendo em minas longe de suas famílias podem exercitar. Eles consequentemente eram vítimas fáceis de doenças venéreas. Europeus sensatos certamente sabiam desses problemas. Alguns deles definitivamente crêem que dificilmente pode-se dizer que a civilização tenha tido, considerando-se em sua totalidade, uma influência saudável nesta raça. Com relação aos efeitos malignos, “he who runs may read them.”

Cerca de quatrocentos anos atrás os holandeses estabeleceram uma colônia neste grande país, até então habitado por uma raça extremamente simples e não sofisticada. Eles possuíam escravos. Alguns holandeses de Java com seus escravos malaios entraram no país que é hoje conhecido como Colónia do Cabo. Estes malaios eram muçulmanos. Eles tinham sangue holandês em suas veias e herdaram alguns traços dos holandeses. Hoje sua população está espalhada pela África do Sul, mas a Cidade do Cabo é o seu reduto. Alguns deles hoje em dia trabalham para os europeus, enquanto outros trabalham em ocupações próprias, independente dos europeus. Mulheres malaias são muito diligentes e inteligentes. Elas são geralmente muito limpas em seu estilo de vida. Elas são especialistas em lavar roupas e costura. Os homens trabalham em alguns serviços sem muita importância. Muitos dirigem cabriolets. Alguns aprenderam inglês e foram mais educados. Um deles é o famoso Doutor Abdul Rahman da Cidade do Cabo. Ele era um membro da antiga legislatura colonial na Cidade do Cabo. Sob a nova constituição esse direito de ser parte do Parlamento foi removido.

Enquanto eu descrevia os holandeses, eu incidentalmente falei um pouco sobre os malaios. Mas por enquanto continuemos a ver como a história dos holandeses se sucedeu. Os holandeses têm sido tão bons na agricultura quanto nos campos de batalha. Eles perceberam que a terra à sua volta era muito propícia para a agricultura. Eles também notaram que os ‘nativos’ facilmente conseguiam produzir o suficiente para todo o ano apenas trabalhando por um curto período durante o mesmo. Por que eles não iriam forçar os nativos a trabalharem para eles? Os holandeses tinham armas. Eles eram estrategistas muito inteligentes. Eles sabiam como domar seres humanos como outros animais e eles acreditavam que a religião deles não os proibiam de praticar tais atos. Desta forma, eles iniciaram sua agricultura com o trabalho escravo dos ‘nativos’ sul-africanos sem qualquer dúvida sobre a moralidade de seus atos.

Da mesma forma que os holandeses procuravam por terras boas para sua própria expansão, os ingleses gradualmente também chegaram na África do Sul. Os ingleses e os holandeses eram claramente “cousins”. Seus caracteres e ambições eram semelhantes. “Pots from the same pottery are often likely to clash against each other.” Da mesma forma estas duas nações, à medida que eles realizavam os seus respectivos interesses e escravizavam os Negros, vieram a se confrontar. Houveram disputas e batalhas entre eles. Os ingleses foram derrotados na batalha de Manjuba hill. Majuba deixou um gosto amargo na boca dos ingleses, que fez vir à tona a Guerra dos Bôeres, que teve início em 1899 e terminou em 1902. E quando o general Cronje se rendeu, Lorde Roberts pôde enviar uma mensagem para a rainha Victoria dizendo que Majuba tinha sido vingada. Mas quando esse primeiro confronto entre as duas nações ocorreu antes da Guerra dos Bôeres, muitos dos holandeses se rejeitaram a permanecer sob até mesmo a autoridade nominal dos ingleses e se mudaram para o interior ainda não explorado da África do Sul. Este foi o início do Transvaal e do Estado Livre de Orange.

Esses holandeses vieram a ser conhecidos na África do Sul como Bôeres. Eles se apegaram à sua língua nativa assim como um bebê se apega à sua mãe, e por isso a preservaram. Eles associam uma forte relação entre sua língua e sua liberdade. Apesar de sofrerem muitos ataques, eles mantiveram sua língua nativa intacta. O seu idioma tomou uma nova forma concordante com a cultura dos mesmos. Como eles não podiam manter contato frequente com a Holanda, eles começaram a falar um dialeto derivado do holandês assim como o prácrito é derivado do sânscrito. E sem querer impor um fardo desnecessário em suas crianças, eles deram uma forma permanente a esse dialeto. Esse idioma é chamado Taal. Os seus livros foram escritos em Taal, as crianças são educadas neste idioma, e os membros Bôeres do Parlamento da União fazem questão de dar seus discursos neste idioma. Desde a formação da União, Taal ou holandês e inglês têm sido oficialmente tratadas em pé de igualdade por toda a África do Sul, tanto que jornais governamentais e registros/atas do Parlamento devem ser escritos em ambas línguas.

Os bôeres são simples, francos e religiosos. Eles vivem no meio de grandes fazendas. Estas fazendas são tão grandes que nós nem sequer temos idéia de seu tamanho. Uma fazenda para nós significa um acre ou dois, e às vezes até menos que isso. Na África do Sul, um simples fazendeiro possui centenas ou milhares de acres de terra. Ele não se apressa para pôr toda esta terra em simultâneo cultivo, e se alguém o  pergunta por quê, ele irá dizer: “Deixe esta terra repousar. Terras que agora repousam serão cultivadas pelos nossos filhos.”

Todo bôere é um bom lutador. Não importa quanto eles briguem entre si, sua liberdade é tão especial para eles que quando ela está em perigo, todos se unem e lutam como um homem só. Eles não necessitam treinos elaborados, já que lutar é uma característica de toda a nação. General Smuts, General De Wet e General Herzog são todos grandes advogados, grandes fazendeiros e igualmente grande soldados. General Botha tinha uma fazenda de nov mil acres. Ele conhecia muito bem todas as complexidades da agricultura. Quando ele foi para a Europa em conexão às negociações de paz, foi dito que havia poucos na Europa que eram tão bons pastores de ovelhas como ele era. General Botha sucedeu o falecido presidente Kruger. Seu conhecimento da língua inglesa era excelente; apesar disso, quando ele se reuniu com o rei e os ministros na Inglaterra, ele sempre preferia falar em sua língua natal. Quem pode dizer que isso não era a coisa certa a se fazer? Por que ele deveria correr o risco de cometer um erro para mostrar o seu conhecimento de inglês? Por que ele se permitiria perder sua linha de raciocínio em busca da palavra certa em uma frase? Os ministros britânicos poderiam acidentalmente usar alguma expressão idiomática não muito conhecida, ele poderia não entender o que eles queriam dizer, ser levado a dar uma resposta errada e ficar confuso, e consequentemente sua causa sofreria com isso. Por que ele iria cometer tal mancada?

As mulheres bôeres são tão corajosas e tão simples quanto aos homens. Se os bôeres derramaram seu sangue na guerra dos Bôeres, eles puderam oferecer esse sacrifício dado à coragem de suas mulheres e da inspiração que eles receberam delas. As mulheres não tinham medo de se tornarem viúvas e se recusavam a gastar um segundo pensando no futuro.

Eu disse previamente que of bôeres são cristãos. Porém, não se pode dizer que eles de fato crêem no novo testamento. De fato a europa inteira não crê no novo testamento; na europa, entretanto, eles afirmam respeitá-lo, embora somente poucos conhecem e vivem a religião de paz que é a religião cristã. Mas em relação aos bôeres pode-se dizer que eles conhecem o novo testamento somente pelo nome. Eles lêem o velho testamento com devoção e sabem de cor as descrições das guerras que ele contém. Eles aceitam completamente a doutrina de Moisés de “olho por olho e dente por dente.” E eles agem de acordo com esta doutrina.

As mulheres bôeres entendiam que sua religião requeria que seu povo sofresse para preservar sua independência, e portanto aguentavam pacientemente e alegremente todas as dificuldades. Lord Kitchener não poupou esforços para mudar essa atitude. Ele as confinou em campos de concentração separados, onde elas sofreram torturas indescritíveis. Elas foram mantidas com fome, sofreram frios extremos e calores ardentes. Às vezes um soldado bêbado ou louco por paixão/atração física podiam até mesmo tê-las abusado sexualmente. Apesar de tudo isso, as bravas mulheres bôeres não vacilaram em seu espírito. E ao fim o rei Edward escreveu para o lorde Kitchener, dizendo que ele não podia tolerar tal tratamento, e que se esse fosse o único jeito de fazer com que os bôeres se rendessem, ele preferiria qualquer tipo de acordo pacífico à continuação da guerra desta maneira, e pediu para o general para acabar com a guerra o mais rápido possível.

Quando esse grito de angústia chegou à Inglaterra, os ingleses ficaram profundamente comovidos. Eles ficaram extremamente admirados pela coragem dos bôeres. O fato que uma nação tão pequena conseguiu manter um conflito com o seu império mundial os deixaram pasmos. Mas quando o grito de agonia das mulheres nos campos de concentração chegaram à Inglaterra não por estas mulheres, tampouco por seus homens, – eles estavam lutando bravamente nos campos de batalha, – mas através de uns poucos homens e mulheres ingleses de bom coração que até então estavam na África do Sul, os ingleses começaram a compadecer-se. O falecido Sir Henry Campbell-Bannerman leu a mente da nação inglesa e levantou sua voz contra a guerra. O falecido Sr. Stead orou publicamente e convidou a outros para também orarem para que Deus pudesse decretar a derrota dos ingleses nesta guerra. Isto foi um momento maravilhoso. O sofrimento real e corajoso derrete até mesmo um coração de pedra. Tal é o poder do sofrimento ou tapas. E é este o princípio no qual se baseia o Satyagraha. 

Isso resultou no Tratado de Vereeniging, e finalmente todas as quatro colônias da África do Sul foram unidas em um só governo. Embora todo o indiano que lê jornais saiba deste tratado, há alguns fatos conectados a ele que talvez muitos não conheçam. A União não aconteceu imediatamente depois do tratado de paz, mas cada colônia tinha sua própria legislatura. O ministério não era totalmente responsável pela legislatura. O Transvaal e o Estado Livre foram governados ao estilo da Colônia da Coroa. Os generais Botha e Smuts não se contentaram com tais restrições de sua liberdade. Eles se mantiveram indiferentes ao conselho legislativo. Eles não cooperaram com este. Eles se recusaram categoricamente a se associarem de qualquer forma com o governo. Lorde Milner fez um discurso muito crítico e duro, no qual ele disse que o general Botha não deveria achar que ele era tão importante a ser necessário para o governo. O  governo do país poderia continuar muito bem sem o general. Lorde Milner consequentemente decidiu encenar Hamlet sem o príncipe da Dinamarca.

Até agora eu tenho escrito com tremenda admiração da bravura, do amor à liberdade e da capacidade de auto sacrifício dos boêres. Entretanto eu não quero dar a impressão de que não haviam diferenças de opinião entre os mesmos durante os seus dias de luta, ou que não haviam pessoas covardes entres eles. Lorde Milner teve bastante sucesso em organizar um grupo de boêres que se satisfazia facilmente, e convenceu a si mesmo que ele poderia fazer uma legislatura bem sucedida com a assistência desse grupo. Até mesmo uma peça de teatro não pode ser dirigida sem o seu herói: e um administrador que ignora o papel principal em qualquer situação que ele tenha que lidar, e ainda espera se sair bem sucedido, só pode ser considerado insano. E este era o caso do Lorde Milner. Dizia-se que embora o mesmo adorava blefar, ele achou tão difícil governar o Transvaal e o Estado Livre sem a ajuda do general Botha, que o Lorde era frequentemente visto em seu jardim ansioso e agitado. O general Botha claramente disse que pelo Tratado de Vereeniging, como ele o entendia, os boêres tinham o direito de ter total autonomia doméstica. Ele complementou dizendo que, se este não fosse o caso, ele nunca haveria assinado o tratado. Em resposta a esse comentário, Lorde Kitchener declarou que ele não havia feito este acordo com o general Botha. Seria garantido aos boêres, disse o Lorde, uma gradual autonomia para governar à medida que os mesmos provassem sua lealdade! Agora quem seria o juiz para dizer que estava certo e quem estava errado? Como alguém poderia esperar que o general Botha concordasse se alguém sugerisse algum meio de arbitragem? A decisão na qual o governo imperial chegou nessa disputa foi muito honrosa. Eles disseram que o grupo mais forte deveria aceitar a interpretação do acordo imposta pelo grupo mais fraco. De acordo com os princípios da justiça e da verdade, esta é a perspectiva correta de interpretação. Eu posso querer dizer qualquer coisa, entretanto eu devo reconhecer que meu discurso ou minha escrita quiz dizer aquilo que minha audiência compreendeu no momento em que eles receberam minha mensagem. Nós frequentemente quebramos esta regra de ouro em nossas vidas. Essa é a causa de muitas disputas, e assim são criadas meias verdades – que são piores que mentiras.

Consequentemente, quando a verdade triumfou – no caso em questão o general Botha – ele começou o seu trabalho. Todas as colônias foram finalmente undias, e a África do Sul obteve soberania. Sua bandeira é a bandeira britânica, e aparece em vermelho nos mapas, porém não é exagero algum dizer que a África do Sul é completamente independente. O império britânico não pode receber sequer uma moeda da África do Sul sem o consentimento de seu governo. E isso não é tudo: os ministros britânicos outorgaram que se a África do Sul quiser remover a bandeira britânica e tornar-se independente até mesmo em nome, nada os impede de fazê-lo. E se os boêres não deram este passo até agora, é porque há bons motivos para não o darem. Porque uma coisa é certa: os líderes boêres são sensatos e sagazes. Eles não vêem problema algum em manter uma parceria com o império britânico na qual eles não têm nada a perder. E ainda há uma razão prática. Natal é predominada por ingleses, na Colônia do Cabo há uma grande população inglesa embora os boêres ainda sejam a maioria; em Johannesburgo os ingleses também predominam. Esta sendo a situação, se os boêres procurarem estabelecer uma república independente na África do Sul, o resultado seria uma “luta intestinal” e possivelmente uma guerra civil. A África do Sul, portanto, permanece como domínio do império britânico.

É importante comentar sobre como a Constituição da União foi escrita. Uma convenção nacional, composta de representantes de todos os partidos nominados pelas legislaturas coloniais, preparou de forma unânime uma proposta de Constituição que o Parlamento Britânico deveria aprovar por completo. Um membro da Câmara dos Comuns observou que havia um erro gramatical na Constituição e sugeriu que o mesmo fosse corrigido. O falecido Sir Henry Campbell-Bannerman, ao rejeitar a sugestão da correção gramatical, disse que gramática perfeita não era essencial para se governar e que a Constituição foi escrita através de negociações entre o gabinete britânico e os ministros da África do Sul e que estes não deram ao Parlamento Britânico direito algum de corrigir qualquer parte de sua Constituição. Consequentemente, a Constituição sulafricana, reformulada em forma de projeto de lei imperial, foi aprovada por ambas casas do parlamento, sem qualquer alteração.

Há mais uma circunstância connectada a este episódio que vale a pena contar. Há algumas provisões no Ato da União que possam parecer sem sentido para os leigos. Estas provisões causaram um aumento significativo nos gastos públicos. Este fato não escapou a atenção dos formadores da constituição; mas seu objetivo não era escrever uma constituição perfeita, mas sim atender a todas as colônias e fazer da constituição um sucesso. É por isso que a União tem quatro capitais, nenhuma colônia estando preparada para abdicar de sua própria capital. De modo semelhante, embora as antigas leis coloniais foram abolidas, conselhos provinciais com funções delegadas e subordinadas foram criados. E embora os governos coloniais foram abolidos, funcionários públicos equivalentes aos postos de governador e administradores provinciais foram nomeados. Todos sabem que quatro legislaturas locais, quatro capitais e quatro governadores são desnecessários e servem somente de aparência. Mas os sagazes estadistas sulafricanos não se opuseram. A estrutura é pomposa e aumenta os gastos, mas união era desejável e portanto os estadistas fizeram o que acharam certo – indiferentes ao criticismo exterior – e conseguiram aprovar seu projeto de lei no parlamento britânico.

Eu me aventurei a esboçar brevemente a história da África do Sul, pois sem esta, me pareceu difícil explicar o significado da grande luta Satyagraha. Agora nos resta ver como os indianos vieram para este país e lutaram contra suas adversidades antes do início do Satyagraha.

 

 

 

 

Capítulo 1 – Geografia

A África é um dos maiores continentes do mundo. Dizem que a Índia é um continente, ao invés de um país, mas se considerarmos somente a área da Índia, o tamanho da África é quatro ou cinco vezes maior. A África, assim como a Índia, é uma península. Consequentemente, a África do Sul faz uma enorme fronteira com o Oceano. As pessoas pensam que a África é o lugar mais quente do mundo, e essa impressão faz muito sentido. A linha do equador passa no meio da África, e a população da Índia não tem idéia do calor nos países situados ao longo do equador. O calor que nós sentimos no extremo sul da Índia nos dá uma idéia do calor na África Central. Entretanto, na África do Sul não há calor desse tipo, já que ela está muito abaixo do equador. O clima de muitas partes é tão saudável e temperado que europeus podem viver lá confortavelmente, ao passo que é quase impossível para os europeus morarem na Índia. Além disso, há terrenos muito elevados na África do Sul como Tibet ou a Kashmira, mas estes terrenos não são tão elevados quanto o Tibet. Consequentemente, o clima é seco e frio, mas não insuportavelmente frio, e alguns lugares na África do Sul são altamente recomendados como lugares para recuperação de doenças pulmonares, etc. Um desses lugares é Johannesburgo, a cidade de ouro da África do Sul. Há cinquenta anos atrás, Johannesburgo era uma terra inabitada e coberta com grama seca. Mas quando exploradores descobriram minas de ouro, casas começaram a ser construídas uma atrás da outra, como se fosse mágica, e hoje há em Johannesburgo muitos prédios grandes e bonitos. As pessoas ricas de Johannesburgo trouxeram árvores de áreas mais férteis da África do Sul e da Europa, pagando “uma guinea” por árvore, e plantaram essas árvores lá. Um viajante ignorante desses fatos poderia até imaginar que essas árvores fossem naturais de Johannesburgo.

Eu não me proponho a descrever todas as regiões da  África do Sul, mas eu me confinarei às regiões que estão relacionadas com a história do movimento. Uma parte da África do Sul está sob o domínio português, e o resto sob o domínio britânico. O território sob domínio português é chamado Baía Delagoa, e este é of primeiro porto sul-africano para navios vindos da Índia. Indo mais para o Sul nós temos KwaZulu-Natal, a primeira colônia britânica. O seu porto principal é chamado Porto Natal, mas nós o chamamos Durban, que é o nome mais popularmente conhecido aqui na África do Sul. Durban é a maior cidade em KwaZulu-Natal. A capital é Pietermaritzburg, situada mais para o interior, a uma distância de cerca de sessenta milhas de Durban e a uma altura de cerca de dois mil pés acima do nível do mar. O clima em Durban é como o clima em Bombay, embora um pouco mais frio. Se formos de Natal mais para o interior, nós chegaremos ao Transvaal, cujas minas geram a maior quantidade de ouro no mercado mundial. Alguns anos atrás foram encontradas minas de diamantes, onde em uma delas eles encontraram o maior diamante do mundo. O Cullinan, nomeado em homenagem ao fundador da mina, pesava mais que 3000 carats, ou mais que 4/3 de uma libra avoirdupois, enquanto que o kohinoor hoje pesa cerca de 100 carats e of Orloff, uma das jóias da coroa da Rússia cerca de 200 carats.

Mesmo Johannesburgo sendo o centro da indústria de minas de ouro e com minas de diamantes em sua vizinhança, ela não é a capital do Transvaal. A capital dessa região é Pretória, que fica cerca de trinta e seis milhas de Johannesburgo.  Em Pretória vivem principalmente políticos, funcionários públicos e as pessoas que trabalham em negócios envolvendo estes. Portanto, Pretória é um lugar relativamente calmo, enquanto que Johannesburgo é uma cidade muito ativa.  Assim como uma pessoa de uma pequena cidade do interior ficaria confusa com o barulho e o grande fluxo das grandes cidades, uma pessoa de Pretória ficaria confusa quando chegasse em Johannesburgo. Não seria exagero se eu dissesse que as pessoas de Johannesburgo não andam mas correm pelas ruas. Ninguém se dá o luxo de olhar para as outras pessoas, e todos estão aparentemente absortos em como ganhar a maior quantidade de dinheiro na menor quantidade de tempo! Se ao sairmos do Transvaal nós formos em direção ao Oeste, nós chegaremos no Estado Livre de Orange. Sua capital é Bloemfontein, uma cidade pequena e bem pacata. Não há minas no Estado Livre de Orange como as minas do Transvaal. À poucas horas de trem do Estado Livre de Orange está a fronteira entre este estado e a Colónia do Cabo, a maior de todas as colônias da África do Sul. Sua capital, que também é a sua maior cidade-porto, é conhecida como Cidade do Cabo e está situada no Cabo da Boa Esperança, assim chamado pelo rei João de Portugal, pois depois de sua descoberta ele acreditava que seu povo seria capaz de encontrar uma nova e mais fácil maneira de chegar à Índia, o objetivo supremo das expedições marítimas daquela era.

Mais ao norte dessas quatro colônias britânicas, existem vários territórios que estão sobre ‘proteção’ inglesa, habitados por raças que migraram para la antes da aparição dos europeus nessa região.

A principal indústria da África do Sul é a agricultura e para isso o país é particularmente adequado. Algumas partes do país são muito férteis e agradáveis. O principal grão é o milho, que é cultivado sem precisar de muito trabalho e é ingrediente da refeição básica/típica dos habitantes negros da África do Sul. Trigo também é cultivado em algumas partes. A África do Sul também é famosa por suas frutas. Em KwaZulu-Natal são cultivados muitos tipos de bananas, papaias e abacaxis, e estes também em tal abundância que até os mais pobres entre os pobres os comem. Em KwaZulu-Natal assim como em outras colônias, laranjas, pêssegos e damascos crescem em tamanha quantidade que milhares get them in the country for the labor of gathering them. A Colónia do Cabo é a terra das uvas e ameixas. Dificilmente outros lugares dão tantas uvas finas/deliciosas, e na temporada de uvas elas são tão baratas que até os homens pobres podem comprá-las. É impossível que não haja mangas em um lugar habitado por indianos. Indianos plantaram pés de manga na África do Sul e consequentemente também há mangas em grande quantidade nessa região. Alguns tipos de manga que se plantam lá certamente podem competir com as melhores mangas de Mumbai. Vegetais também são cultivados naquela terra fértil, e pode-se dizer que quase todos os vegetais da Índia são cultivados lá por indianos com um paladar para as iguarias de sua terra natal.

Na África do Sul também há grande criação de gado. Os bois e vacas são geralmente mais fortes e maiores que o gado na Índia. Eu geralmente me envergonho, e meu coração tem muitas vezes se partido, ao saber que muitos bois e vacas na Índia, que alega proteger as vacas, são tão magros quanto à população indiana. Embora eu tenha vivido ou visitado quase todas as regiões da África do Sul, eu não me recordo de ter visto uma única vaca ou boi magro/fraco (emaciado).

A Natureza não só abençoou a África do Sul com imensa fertilidade, mas também a abençoou com muita beleza natural e lindas paisagens.

A paisagem de Durban é considerada muito bonita, mas a da Cidade do Cabo a supera. A Cidade do Cabo se situa ao pé da Tábua do Cabo que é uma montanha que não é muito alta nem muito baixa. Uma poeta talentosa que adora a África do Sul diz em um de seus poemas sobre esta montanha que ela é incomparável, ímpar dentre todas as outras montanhas. Pode haver um certo exagero neste poema. Eu acredito que haja. Mas eu fortemente acredito em uma de suas observações neste poema. Ela diz que que a Tábua do Cabo se situa como uma amiga para os cidadãos da Cidade do Cabo. Não sendo muito alta, não inspira temor/admiração. De longe, as pessoas não se sentem forçadas à venerá-la, mas pelo contrário, elas constroem suas casas nessa montanha e por lá vivem. E, como se localiza próxima à beira do oceano, o mar sempre lava seus pés com suas águas claras. Jovens e idosos, homens e mulheres, transitam sem temor sobre toda a montanha, que ressoa todos os dias com as vozes de milhares de seus habitantes. Suas árvores altas e flores de fina fragrância e diversas cores dão tamanho charme à montanha que as pessoas nunca ficam entediadas com sua beleza, e nunca se cansam de passear por ela.

A África do Sul não possui rios tão vastos como o Ganges ou o Indo. Os poucos rios que lá existem não se comparam a estes. Poucas regiões possuem rios na África do Sul. Nenhum canal pode ser levado aos planaltos. E como poderiam haver canais na ausência de grandes rios? Onde não há rios na África do Sul, o povo cava poços artesianos, e a água que se precisa para irrigar os campos é bombeada por moinhos de vento ou máquinas a vapor. A agricultura recebe muita ajuda do governo. O governo envia especialistas em agricultura para aconselhar os agricultores, mantém fazendas modelos onde experimentos são feitos para a melhoria da agricultura, provê aos fazendeiros bom gado e boas sementes, cava poços artesianos para eles há custos muito baixos e além disso lhes permite pagar pelos seus serviços à prazo. Da mesma forma, o governo também constrói cercas farpadas para proteger suas fazendas.

Assim como a África do Sul está para o sul, e a Índia para o norte da linha do equador, as condições climáticas lá são o oposto do que elas são aqui [na Índia]. As estações são opostas nos dois países. Por exemplo, enquanto nós estamos no verão, a África do Sul está no inverno. A chuva é incerta e inconstante. Pode ocorrer há qualquer hora. A média anual de chuva raramente passa dos 51 centímetros.